quinta-feira, 28 de maio de 2009

Conversas chuvosas

Sombras. Noite. Escuridão. Becos. Metrópole. Gatos. Carros. Luzes. Todas elas, muitas delas. Poucas pessoas vagam entre pensamentos vagos. Chuva. Nuvens. Trovão. E assim cada elemento compõe o ar noturno, como uma peça que se encaixa perfeitamente na cena. Grama. Barro. Um cemitério um tanto quanto afastado. Quase completamente distante dos neons da cidade, semáforos e luminárias.Relampejar. Flash. Paisagem. Som. Estrondo.Vento.

Chove forte, como um golpe de esquerda inesperado de pugilista. Gotas em fúria caem sobre a cidade. Frio. Um tanto incomum para a época do ano, qualquer que fosse ela verdadeiramente. Algo de estranho na noite.


Luzes .Todas as luzes da metrópole .Vivas as luzes .

Um raio.Relâmpago.Trovão.Estrondo.Blecaute, exatamente nesta sequência .


As gotas escorrem profusas pelas frestas dos velhos mausoléus. Um vulto caminha entre as lápides, canino, quadrúpede, molhado, depressa adentra uma porta, de uma casa velha em sua própria aura, se a casa tivesse uma afinal. Um vira-latas estranho , se esgueira por uma passagem pequena na porta trancada.Anda pelo curto corredor da casa e para em frente ao velho vigia do cemitério .


"Olá velho Rupert!" .


"Olá velho cão!"

Estrondo.Escuridão.

Chuva. Vento. Tempestade. A melodia das gotas gritando contra a janela e tocando a porta. E o homem falava com o animal, que balançava os pelos molhados, espalhando água, pingando sobre o velho vigia. "Vai ser uma noite daquelas não é mesmo, amigão?"

O animal balança o rabo e mostra a língua ofegante.E ambos continuam a conversa .
"Eles estão aqui" diz o velho cão."Estava demorando me encontrarem" responde o velho vigia.

O Vigia olha pela fresta de seu casebre."Trouxe mais pulgas para o senhor pelo visto, me desculpe" diz o cão .

O homem observa a janela e a chuva.Na escuridão outros cães se aproximam, pelo menos cinco deles.Uma batida monótona a porta.Sem força.Sem vida.Sem pressa.Desanimada como o dono da mão que abre a maçaneta logo em seguida, como que por mágica a porta destranca.Um estranho molhado.Pele pálida.Olhos tristes e vazios.Ele nada fala.O coração do velho vigia dispara .

"O que eu devo fazer?" Pergunta o cão vira-latas ao velho vigia."Seja o bom e velho covarde de sempre, meu amigo" e dizendo estas palavras ao cão que coçava suas pulgas.

Enquanto isso o novo visitante senta-se numa cadeira, ignorando os demais ali na sala.Tanto o cão quanto o vigia limitam-se a observar.O homem pálido tirando suas botas e seu casaco.Lentamente acende uma lamparina sobre a mesa de madeira da humilde casa.Finalmente uma voz padronizada de tão formal e desinteressante se dirige ao vigia.

"Nesta noite precisamos dos seus serviços velho, não adianta se esconder meu caro, eu posso ver os mortos e sei que está ai paradinho perto desse cão pulguento".

E o homem pálido sorri e mostra suas presas."Não me obrigue a te matar de novo e ao seu cão".
Vampiros podem ser tão simpáticos.E assim uma nova conversa ocorre em um casebre velho, dentro de um cemitério, onde o fantasma de um vigia sente seu coração morto acelerar.Fantasmas não deveriam sentir o pulsar de um sangue inexistente em suas artérias, mas essa é apenas a lembrança do medo, não é real.

Lentamente um a um dos outros cinco cães molhados entram na sala do casebre e assumem formas humanas."Ele está aqui nesta sala?" pergunta o maior dos vampiros ali presente.E com um consentimento o pálido homem sem botas procura um outro calçado seco que lhe sirva entre os pertences do vigia há muitos anos morto, vagarosa e desinteressadamente indica uma direção onde os demais apenas veem o vazio. Mas que o velho vigia e o pobre cão, sabem ser exatamente onde estão parados.

"É só perguntarem estamos entre mortos.Quando ele disser algo de útil eu aviso"

E assim ocorre uma longa noite de conversas chuvosas, onde apenas os mortos ouvem o ranger da madeira do piso e das velhas árvores ao vento .

Um cão covarde tenta fugir do lugar. Mas percebe que assim como o velho, ele também está morto.

Autor:Pablo Frazão.

Um comentário:

Luana Inaudita disse...
Este comentário foi removido pelo autor.