sábado, 16 de maio de 2009

Prédios

Em um prédio sujo, velho e decadente que poderia ser em qualquer metrópole do mundo, desde que fosse realmente decadente em todos seus componentes, dos moradores, até cada simples partícula de poeira que repousa sobre concretos e teias.Na própria aura que o encobre, Decadente, de forma enfática, como se vestisse um paletó pouco antes de seu próprio funeral.

Atrás de uma das portas fechadas do terceiro andar, uma esposa é espancada,  e o medo abafa o choro, um grito travado entre os dentes. Em outro apartamento um homem se entrega ao crack como se fosse uma doce amante, com até mais fervor, seu mundo contido na pedra, e enquanto isso sua esposa trepa em troco de mais drogas, com a porta aberta, sem se importar

.Dois andares acima uma adolescente escreve uma carta aos prantos, tantos dentre outros. E neste mesmo momento uma criança brincando com uma arma dispara pela janela um projetil. Minutos antes da vizinha do quinto andar envenenar seus filhos e se matar enforcada. No sexto andar uma garota é filmada, sendo chupada por outra garota, amarrada numa cama contra sua vontade. No térreo um homem é algemado por vontade própria e sodomizado pela melhor amiga de sua mulher, a esposa chegará em três segundos flagrando a cena.

Decadente, é o prédio em sua alma. Mofo, cheiro de urina, dores entranhadas nas pedras e no concreto. Lapides em forma de apartamentos.

O tempo escapa com o disparo da criança, que pela janela acerta um pobre gato que paga o pato como uma brincadeira de ditados e frases feitas.

Em algum ponto da trajetória do tempo a adolescente termina sua carta e salta pela janela.O tempo volta a escorrer normal, em sangue.E assim segue.Sequencial, metódico.Implacável.

Dois prédios a esquerda.Em um ponto onde não haveria qualquer visibilidade de tais eventos, um jovem desperta assustado, ciente de todos esses acontecimentos, suando, ele vai até a janela encara a noite e ouve um tiro e depois novo disparo, e por alguma razão ele sabe que um homem morreu baleado, enquanto algemado era sodomizado pela melhor amiga de sua mulher que usava um brinquedo nele por vontade própria e consentimento de ambas as partes.É tem gente que se fode duplamente e ainda morre de maneira inglória e humilhante.E o que aconteceu com o segundo disparo?

O jovem que vê todas as cenas quase como se fossem palpáveis, ele sabe.E se assusta, pelo grau de detalhes e certezas, é como se em questão de segundos tudo o que acontece no bairro fosse de sua alçada.Uma testemunha.Um voyeur involuntário.

"Pobre gato" ele pensa.E quando essas palavras surgem em sua mente, ele vê a criança no prédio decadente chorar assustada e deixar a arma cair e o novo disparo entra para as estátísticas de mais um acidente doméstico.Choro interrompido.E seus pais sem saber.Um deles fumando crack e a mãe trepando por mais drogas.

O jovem que sente todos os movimentos e pensamentos das pessoas na rua, observa os transeuntes pela janela, sente o ar noturno assustado, e ele não se sente bem. Vertigem .Náusea.Uma onisciência territorial e inesperada.Seu estomago revira ele corre ao banheiro, ajoelha na privada e vomita.

Exatos dois minutos após parar de vomitar sua namorada irá ligar avisando que vai demorar uns minutos, mas a ligação será interrompida por uma bala perdida desferida pela mulher que corre atras de sua melhor ex-amiga que grita, seminua com algo sintético pendurado em sua calcinha, que desce pela escada de incendio e corre em direção ao posto de gasolina.

Confuso leitor? O jovem vomitando na privada, também.

Toca o telefone.

"Alô?" diz o jovem com o estomago revirando e a cabeça latejando.
"Oi amor, parei no posto de gasolina aqui perto, vou demorar alguns minutinhos..."
"Que?Sai dai agora!"Ele grita assustado, mas um disparo realmente interrompe a ligação.

Dor. Muita dor. "Morfina" o jovem sussurra. Caído ao chão de seu apartamento.

"Morfina"

Autor:Pablo Frazão

3 comentários:

Débora disse...

Cara, que conto muito louco!!!
E sem querer, o li com a trilha sonora perfeita, que casou certinho com a estória:

http://www.imeem.com/deadlygroceries/music/jgyLV0Pp/mono-ashes-in-the-snow/

Samedi disse...

Nossa, predio decadente mesmooo :S huahau
Dahora o conto, quero ver outros, vou add o blog nos favoritos ^^
abraço T++

Alexandre VmL disse...

Curti bastante, velhinho! Não desista, um conto bem interessante.